Esta é a história do Miguelito. Miguelito era um crioulinho franzino nascido lá nos cafundós do Judas. Ele tinha muitos irmãos e o pai, o Seu Zé, ao ver que os filhos cantavam bem, principalmente o Miguelito, resolveu ganhar muito dinheiro com eles.
Só que o Seu Zé era muito autoritário, fazia os filhos ensaiarem as danças e as músicas exaustivamente. Miguelito praticamente não teve infância.
Isso deixou profundas marcas psicológicas em Miguelito que, entretanto, ficou famosíssimo, deixou o grupo dos irmãos e decidiu seguir carreira solo. Os passos de dança por ele criados faziam sucesso e eram bastante imitados no mundo todo; ganhou fortunas.
Miguelito, todavia, era um tanto “seqüelado” por ser negro, ainda mais numa sociedade racista. De repente uma doença foi deixando a pele dele clara, clara, muito clara.
Miguelito passou a fazer muitas operações plásticas, tornou-se megalomaníaco, comprou uma mansão nababesca na Califórnia e pôs-lha o nome de “Terra do Nunca”.
O mega-artista ficou com medo de envelhecer, passou a receber crianças em casa, ganhou fama de pedófilo e doente. E a megalomania continuou: mesmo com a natural decadência, mas sem perder a grandeza, gastava mais e mais, para manter o fausto e o luxo.
Tudo fachada.
Miguelito sentia-se só, o pai sempre o explorou, vivia constantemente doente e entupia-se de remédios.
Um duro golpe sofrido pelo cantor foi a enxurrada de processos na Justiça, sendo acusado de pedofilia, de tanto receber menores em casa. E tome milhões e milhões de dólares torrados com advogados.
Miguelito estava arrasado, acabado, desacreditado, adoentado, endividado.
Mas Miguelito queria voltar. E em grande estilo.
Marcou cinqüenta apresentações em Londres: ensaiou, cantou, dançou, até que...
Miguelito morreu!
A ânsia de grandeza, os remédios e o vício em sucesso o mataram.
Depois que Miguelito morreu, a ex-mulher dele, o Seu Zé e muita gente estão brigando para ter a fortuna do finado.
Essa história lembra muito uma certa parábola que o Senhor havia contado:
“Havia um homem rico cujos campos produziam muito.
E ele refletia consigo: Que farei? Porque não tenho onde recolher a minha colheita.
Disse então ele: Farei o seguinte: derrubarei os meus celeiros e construirei maiores; neles recolherei toda a minha colheita e os meus bens.
E direi à minha alma: ó minha alma, tens muitos bens em depósito para muitíssimos anos; descansa, come, bebe e regala-te.
Deus, porém, lhe disse: Insensato! Nesta noite ainda exigirão de ti a tua alma. E as coisas, que ajuntaste, de quem serão? Assim acontece ao homem que entesoura para si mesmo e não é rico para Deus.” (Lucas 12, 16-21)
Que Deus tenha piedade da alma de Miguelito, que finalmente ele descanse em paz e tenha sido perdoado por ter feito tanta coisa esquisita na vida.